sábado, 28 de fevereiro de 2009

Cansaço

Ela está em seu quarto. Há mais de trinta minutos fita o teto, não sabe o que busca, mas espera encontrar algo. Feliciana sempre espera encontrar algo, porém nunca soube definir o que está procurando.

Sempre tivera hábitos estranhos, gostos estranhos e um dedo podre para escolher por quem se apaixonar. Talvez o conjunto de todas essas qualidades bizarras fez com que Feliciana se tornasse uma mulher amargurada e solitária. Sua vida foi construída de procura, espera e rejeição. Ela quer amar, quer viver, quer mostrar quem realmente é a ao que veio para esse mundo. No entanto, não consegue. Sente-se inútil a maior parte de seus dias. Feliciana cansou-se da vida, do mundo e de todas as pessoas que a cercam.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Da série Feliciana, a infeliz

Feliciana por infelicidade do destino recebera esse nome. O qual nunca combinara muito com ela ou seu estado de espírito. Ela era definitivamente infeliz. Mas algo mudara. Após suas crises existenciais, os chifres colocados pelo namorado - o qual definitivamente não era digno de dor e desespero por parte de Feliciana - ela decidira que iria viver.
Viver? Mas ela já não estava viva? Em partes. Seus olhos se abriam todas as manhãs com a luz do sol invadindo seu quarto, respirava o ar impuro da cidade, caminhava pelas ruas, se alimentava e cumpria com todas as funções fisiológicas básicas para a sobrevivência de um humano. Aí está a chave do mistério, Feliciana apenas sobrevivia.
Mas naquela manhã florescente de primavera ela prometera a si mesma que iria viver. Para isso ela aproveitaria todas as oportunidades da vida, abandonaria todos os velhos padrões e regras que ela estabelecera para si mesma. Seguiria a mais antiga de todas as máximas conhecidas: "Viva o hoje como se fosse o último dia". No entanto, ela estava tão acostumada com a sobrevivência insignificante que levava há anos que não via maneira de abandoná-la.
A luz no fim do túnel se revelou em uma conversa de lotação. Feliciana tinha o hábito de ouvir o que os outros falavam no ônibus, sempre achara isso interessante, pois nos quinze minutos que passava dentro do veículo escutava as conversas mais peculiares possíveis.
A REVELAÇÃO
Uma moça loira, não muito magra e nem bonita falava a uma morena que em matéria de beleza se comparava a primeira:
- Aprendi a ser desapegada. - Disse a loira.
- Desapegada? - pergunta uma surpresa ouvinte - Logo você que sempre gostou de tudo tão seu.
- Pois é, não é o desapego exatamente das coisas materiais, mas sim dos sentimentos. Aprendi que não devemos gostar de ninguém além de nossa mãe e de nós mesmos.
- Você não acha isso um tanto... egoísta? - questiona a embasbacada morena.
- Não. Nem um pouco. Cansei de me apegar a pessoas que não merecem, pois como diz Oswald de Andrade "Só a antropofagia nos une", nós nos aproximamos dos demais apenas pelo interesse no que eles podem nos ofertar, então porque deveríamos nos apegar a eles se todos são descartados assim que nossos propósitos são cumpridos?
A amiga ficou pasma com o modo de pensar da outra, nunca julgara que passasse grandes debates filosóficos por sua mente, mas balançou a cabeça assentindo que a amiga estava certa e em seguida ambas desceram do ônibus, já esboçando o início de uma nova discussão.
O IMPACTO
Após essa conversa, Feliciana ficou excitadíssima. Achara a fórmula para largar tudo. "Vou praticar o desapego" - disse para si mesma. A partir daquele instante, Feliciana tornou-se feliz. Desapegou-se de todas as lembranças de um passado distante, desapegou-se das pessoas insignificantes para seus interesses, passou a beijar por desejo e não por paixão. Esqueceu o que significava amor, paixão e quaisquer outra palavra que pudesse levar a concluir tais idéias sentimentais entre duas pessoas com intuito sexual. Afinal não era apenas o sexo que importava? Esta foi outra descoberta de Feliciana, o sexo. Apenas pelo tesão ele tornava-se mais atrativo ainda.
Até que enfim ela encontrara a felicidade que lhe estava destinada desde seu nascimento através de seu nome. E quem lhe proporcionou isso? Todos, ninguém e acima de tudo ela mesma. Feliciana descobrira que o poder da felicidade estava em suas entranhas e não na convivência com os demais. Finalmente ela encontrara seu par perfeito, nunca estivera tão completa - o desapego a pegou de vez e não a deixou jamais.
O conselho de Feliciana? Pratique o desapego. Seja feliz e não se importe com o que os outros pensam do seu estilo de viver, pois eles não interessam para você.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Reedição da Quadrilha de Drumond

Se Drumond tivesse vivido a década de noventa e presenciado a revolução das comunicações, a extinção de um grupo de risco para a Aids, a banalização do corpo humano e de suas idéias, A Quadrilha – poema tão famoso – seria assim:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Bangu I, Teresa para o calçadão de Copacabana,
Raimundo morreu com Aids, Maria virou carola,
Joaquim foi assassinado e Lili luta pela legalização de seu casamento homossexual com Ana Clara, que não tinha entrado na história.


Ao leitor, as explicações dos acontecimentos:

João morava no morro Santa Marta no Rio de Janeiro e, como a maioria dos meninos de sua idade e situação financeira, decidiu trabalhar com o tráfico de drogas. Teve sucesso na carreira em pouco tempo tornou-se chefe. E traficante chefe do morro sempre tem direito as “minas” mais formosas do lugar, mesmo encarcerado em um presídio de segurança máxima. Dessa forma, logo se esqueceu da pobre Teresa, que se tornou prostituta, é portadora do vírus HIV e não sabe. Atualmente ela cobra R$ 20,00 por um boquete na beira mar.
Raimundo, o grande amor da infância de Teresa, não soube controlar sua libido e casou-se muito jovem. Negro, fogoso e bonito do jeito que era, possuiu muitas mulheres pelo morro, tantas que não sabe nomear quem lhe transmitiu Aids, gonorréia e sífilis. Os últimos instantes de sua vida foram passados em uma unidade de tratamento intensivo do SUS relembrando o seu amor por Maria.
Oh, Maria! Eras tão bela! Tão gentil, amável, curiosa e educada. Seu maior defeito era crer no que os outros lhe falavam, dessa maneira quando a Igreja Evangélica do Recato chegou ao morro ela foi uma das primeiras a conhecer a doutrina pregada pelo pastor Pedro de Deus. Não demorou muito para que ela se tornasse uma carola e decidisse que a virgindade era o maior de seus bens. O que ela não sabe ainda é que virá a falecer de velhice aos noventa e cinco anos, VIRGEM e será enterrada em um caixão branco para demonstrar seu recato.
O jovem bonito, esguio e de olhar perturbado que fora a paixão da adolescência de Maria chamava-se Joaquim. Na época em que nasceu sua família era rica, porém quando ele contava cinco anos de idade seu pai – famoso banqueiro brasileiro – foi preso e sua mãe – perua aos extremos – se viu obrigada a mudar para o morro que lhe causara tanto medo nos tempos de riqueza. Joaquim era dono de uma alma frágil, sensível ao sofrimento alheio, por esse motivo não agüentava ver tanta indiferença e maus tratos para com os moradores do morro e resolveu desafiar João, o chefe. Uma semana depois Joaquim foi encontrado boiando no córrego que cortava a favela ao meio, ninguém sabe ou viu o que aconteceu com ele.
Lívia era assim que se chamava a moça conhecida por Lili. Filha de uma pernambucana com um cearense, teve educação rígida e tradicional apesar da pobreza em que sua família vivia. Os valores morais e da família sempre estiveram presentes desde sua infância sofrida, quando seus pais saíram do Nordeste rumo ao Rio de Janeiro em um caminhão pau de arara. No entanto, a menina cresceu. E seu interesse por outras meninas também aumentou, tanto que resolveu assumir um relacionamento com Ana Clara, uma moça que era assumidamente lésbica e tinha má fama no morro Santa Marta.



Por que disso tudo?

Meu caro leitor a essas alturas você deve estar se perguntando o porquê desta quadrilha ser tão trágica e as avessas. Eu lhe explico.
Primeiramente os valores não estão mais impregnados na sociedade atual como eles estavam quando nossos pais vieram ao mundo e decidiram se casar e constituir família.
Segundo vivemos a era do livre arbítrio e das escolhas, porém não são todos que sabem o que escolher.
E por último: o amor é um personagem de conto de fadas e existe somente no reino da fantasia.